{"id":393,"date":"2023-03-16T09:39:31","date_gmt":"2023-03-16T12:39:31","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriappgpse.ip.usp.br\/?p=393"},"modified":"2023-03-16T09:39:31","modified_gmt":"2023-03-16T12:39:31","slug":"sobre-os-gestos-brutais-o-trauma-a-destruicao-e-as-formas-de-adoecimento-psiquico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriappgpse.ip.usp.br\/es\/2023\/03\/16\/sobre-os-gestos-brutais-o-trauma-a-destruicao-e-as-formas-de-adoecimento-psiquico\/","title":{"rendered":"Sobre os gestos brutais: o trauma, a destrui\u00e7\u00e3o e as formas de adoecimento ps\u00edquico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Em fevereiro de 2023, foi publicado o artigo <em>On brutal gestures: trauma, destruction, <\/em><em>and forms of mental illness<\/em>, de Nelson Ernesto Coelho Junior, Eug\u00eanio Canesin Dal Molin &amp; Renata Udler Cromberg, na revista <em>The International Journal of Psychoanalysis<\/em>. Essa \u00e9 a terceira vers\u00e3o publicada deste artigo, que foi originalmente divulgado em portugu\u00eas na revista<em> Jornal de Psican\u00e1lise<\/em>:<em> \u201cSobre os gestos brutais: o trauma, a destrui\u00e7\u00e3o e as formas <\/em><em>de adoecimento ps\u00edquico\u201d<\/em> (2019), e em seguida na revista italiana <em>Frontiere della <\/em><em>psicoanalisi<\/em> como <em>\u201cGesti brutali: trauma, distruzione e dolore psichico\u201d<\/em> (2020).<\/p>\n<p>Link para publica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?pid=S0103-58352019000100020&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=en (ingl\u00eas)<\/p>\n<p>http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0103-58352019000100020&amp;lng=pt&amp;nrm=iso (portugu\u00eas)<\/p>\n<h4>Do que trata este artigo?<\/h4>\n<p style=\"text-align: left;\">O artigo, resultado de projeto de pesquisa e escrita coletivo, investiga as rela\u00e7\u00f5es entre atividade, passividade e passiva\u00e7\u00e3o diante de experi\u00eancias traum\u00e1ticas. Para isto, os autores trabalham com o relato do autor Milan Kundera sobre sua experi\u00eancia com o regime pol\u00edtico autorit\u00e1rio em seu pa\u00eds natal, a Rep\u00fablica Tcheca, utilizando-se de conceitos propostos pelo psicanalista Andr\u00e9 Green e pela concep\u00e7\u00e3o de duas matrizes do adoecimento ps\u00edquico desenvolvida por Lu\u00eds Claudio Figueiredo e Nelson Coelho Junior (2018).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As duas matrizes do adoecimento ps\u00edquico identificadas por Figueiredo e Coelho J\u00fanior s\u00e3o a matriz freudo-kleiniana, que descreve sofrimentos caracterizados por defesas ativas contra ang\u00fastias, e a matriz ferencziana, que descreve estados de adoecimento em que o psiquismo n\u00e3o \u00e9 capaz de organizar defesas, entregue \u00e0 uma passiva\u00e7\u00e3o mort\u00edfera de partes da mente, ligado a experi\u00eancias traum\u00e1ticas precoces.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em suas obras, Milan Kundera fala de suas experi\u00eancias com o regime comunista na Rep\u00fablica Tcheca, descrevendo momentos de entusiasmo inicial com as mudan\u00e7as pol\u00edticas, que s\u00e3o, contudo, seguidos por expuls\u00f5es de seus c\u00edrculos de pertencimento e por persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Esse movimento se repete para o escritor em dois momentos, tanto em 1948, com o come\u00e7o do governo comunista no pa\u00eds, quanto em 1968, quando reformas pol\u00edticas s\u00e3o seguidas da ocupa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e uma nova onda de repress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Analisando este roteiro, em que um ambiente que se apresentava simultaneamente como provedor e promissor acaba em decep\u00e7\u00e3o e um estado passiva\u00e7\u00e3o, o artigo defende que o trauma precoce est\u00e1 ligado a experi\u00eancias de agonia diante da quebra da depend\u00eancia e de queda num estado de passiva\u00e7\u00e3o e de desamparo p\u00f3s-traum\u00e1tico, independentemente do momento de vida. Assim, apesar das viol\u00eancias cometidas pelo regime pol\u00edtico autorit\u00e1rio ocorrerem j\u00e1 na vida adulta do escritor, podemos compreender esse sofrimento como um trauma precoce, pertencendo \u00e0 matriz ferencziana de adoecimentos por passiva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Neste momento, faz-se necess\u00e1ria a diferencia\u00e7\u00e3o proposta por Andr\u00e9 Green, e retomada pelos autores, entre atividade, passividade e passiva\u00e7\u00e3o. A passiva\u00e7\u00e3o aponta para um estado de impot\u00eancia, de passividade-desamparo, que deve ser distinguida de uma passividade prazerosa. Essas s\u00e3o distin\u00e7\u00f5es fundamentais para permitir a an\u00e1lise do gesto brutal &#8211; uma tentativa de, atrav\u00e9s da atividade, defender-se contra a passividade, de um lado, e a passiva\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica, de outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Como exemplo do gesto brutal, os autores trabalham com uma fantasia de estupro relatada por Kundera, que ele discute em tr\u00eas ocasi\u00f5es diferentes (um artigo para a revista <em>l\u2019Arc<\/em>, em 1977, em <em>O livro do riso e do esquecimento<\/em>, em 1978 e em <em>O gesto brutal do <\/em><em>pintor: sobre Francis Bacon<\/em>, em 2013). O escritor narra como, ao ouvir de uma jovem mulher, que o ajudava a escrever e publicar clandestinamente, que ela tinha sido interrogada pela pol\u00edcia secreta e que ela n\u00e3o poderia mais ajud\u00e1-lo, o autor cai novamente no desamparo traum\u00e1tico da passiva\u00e7\u00e3o, ligado \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e se v\u00ea tomado pela fantasia de estuprar violentamente a mulher na sua frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A partir deste relato, os autores conseguem propor 6 diferentes determina\u00e7\u00f5es inconscientes para essa fantasia (considerando as limita\u00e7\u00f5es da interpreta\u00e7\u00e3o de um material liter\u00e1rio e biogr\u00e1fico, considerado fora do contexto de um tratamento psicanal\u00edtico). A sobre-determina\u00e7\u00e3o do gesto brutal considera duas vertentes principais: de um lado, a atividade se apresenta como uma recusa da passividade, que \u00e9 represent\u00e1vel, e ligada a uma agressividade erotizada. De outro lado, o gesto brutal \u00e9 tamb\u00e9m uma defesa contra a passiva\u00e7\u00e3o, caracterizando a atividade como uma defesa, mesmo que fr\u00e1gil, contra a agonia do desamparo. Nas palavras dos autores:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cO desejo e a fantasia de Kundera no apartamento de Praga s\u00e3o mostrados como tentativas de evitar a trajet\u00f3ria da queda, como solu\u00e7os de atividade em meio \u00e0 agonia de um processo de passiva\u00e7\u00e3o\u201d (2023, p. 133, tradu\u00e7\u00e3o nossa).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Este artigo \u00e9 uma importante contribui\u00e7\u00e3o para a compreens\u00e3o das diferentes formas de adoecimento ps\u00edquico, contribuindo, a partir da an\u00e1lise de um relato biogr\u00e1fico, para uma reflex\u00e3o cl\u00ednica e te\u00f3rica que considera de maneira mais complexa e sutil as rela\u00e7\u00f5es entre trauma e destrutividade, de um lado, e as posi\u00e7\u00f5es de passividade,<br \/>\npassiva\u00e7\u00e3o e atividade, de outro.<\/p>\n<h4 style=\"text-align: left;\">Refer\u00eancias<\/h4>\n<p style=\"text-align: left;\">Kundera, M. (1978). O livro do riso e do esquecimento. [The Book of Laughter and Forgetting]. (T. B. C. da Fonseca, Trad.). S\u00e3o Paulo: C\u00edrculo do Livro. (Original tittle: Kniha sm\u00edchu a zapomner\u00ed).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Kundera, M. (2013). \u201c\u201cO gesto brutal do pintor: sobre Francis Bacon\u201d. [The Painter\u2019s Brutal Gesture: About Francis Bacon].\u201d In Um encontro (Teresa B. C. da Fonseca, Trad.), edited by M. Kundera, 9\u201321. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Coelho Junior, N. E.; Dal Molin, E. C. &amp; Cromberg, R. U. (2023) On brutal gestures: trauma, destruction, and forms of mental illness, The International Journal of Psychoanalysis, 104:1, 122-136, DOI: 10.1080\/00207578.2022.2105221<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em fevereiro de 2023, foi publicado o artigo On brutal gestures: trauma, destruction, and forms of mental illness, de Nelson Ernesto Coelho Junior, Eug\u00eanio Canesin Dal Molin &amp; Renata Udler Cromberg, na revista The International Journal of Psychoanalysis. Essa \u00e9 a terceira vers\u00e3o publicada deste artigo, que foi originalmente divulgado em portugu\u00eas na revista Jornal de Psican\u00e1lise: \u201cSobre os gestos brutais: o trauma, a destrui\u00e7\u00e3o e as formas de adoecimento ps\u00edquico\u201d (2019), e em seguida na revista italiana Frontiere della psicoanalisi como \u201cGesti brutali: trauma, distruzione e dolore psichico\u201d (2020). Link para publica\u00e7\u00e3o: http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?pid=S0103-58352019000100020&amp;script=sci_abstract&amp;tlng=en (ingl\u00eas) http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_abstract&amp;pid=S0103-58352019000100020&amp;lng=pt&amp;nrm=iso (portugu\u00eas) Do que trata este artigo? O artigo, resultado de projeto de pesquisa e escrita coletivo, investiga as rela\u00e7\u00f5es entre atividade, passividade e passiva\u00e7\u00e3o diante de experi\u00eancias traum\u00e1ticas. Para isto, os autores trabalham com o relato do autor Milan Kundera sobre sua experi\u00eancia com o regime pol\u00edtico autorit\u00e1rio em seu pa\u00eds natal, a Rep\u00fablica Tcheca, utilizando-se de conceitos propostos pelo psicanalista Andr\u00e9 Green e pela concep\u00e7\u00e3o de duas matrizes do adoecimento ps\u00edquico desenvolvida por Lu\u00eds Claudio Figueiredo e Nelson Coelho Junior (2018). 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